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Cobertura fotográfica do 232° Jubileu Bom Jesus do Matosinhos

Já se passou um mês desde o Jubileu, e a saudade já bateu. 
Pensando nisso, a Rádio Bom Jesus 98 FM em parceria com a Espalha Cultura criou uma galeria de fotos especial trazendo os melhores momentos da festa.

#TbtJubileu, uma galeria colaborativa! Compartilhe usando as hashtags #radiobomjesus98fm e #espalhacultura e participe com suas fotos colaborando no álbum. Clique Aqui  e veja a galeria completa!








Por: Vinícius Leonel (Espalha Cultura)


É numa busca íntima e constante pelo direito e pela justiça, que trago com a fotografia, um olhar sobre as riquezas do nosso país, e que não se trata apenas daquilo que gera renda, mas também aqueles valores humanos e culturais que vão se traduzindo - pra não dizer se perdendo. Foi com intuição e com uma câmera na mão que cheguei à Conceição do Mato Dentro - MG. Durante a festa do Jubileu Bom Jesus do Matosinhos pude registrar e respirar o senso de comunidade, a simplicidade, a fé, e as verdades por trás do chamado Brasil. Agora, sinto a obrigação de retornar estes olhares à tão querida Conceição.

Boa leitura!



Uma festa de devoção mais antiga que a independência do Brasil






















Há 232 anos tudo acontece ao redor da igreja: um acampamento de 800 famílias - romeiros - que constroem uma moradia temporária para a novena; as procissões e promessas sendo pagas nas escadarias do santuário; a cavalgada que recebe 8 mil cavaleiros e amazonas para a benção; o Shopping Brejo que reúne uma série de comerciantes itinerantes que compram e revendem toda a china e o minério dali extraído; e o Forró do Campo que recebe atrações da indústria musical e circuito de rodeio.

























Essa série de eventos, chegam anualmente do dia 13 a 24 de junho na Conceição do Mato Dentro, uma cidade histórica, eco-turística, em processo de modernização e enriquecida pela venda de seus minérios. No alto da colina, o santuário do Bom Jesus do Matosinhos que concentra a maior parte das
celebrações, recebe anualmente do vaticano um tema a ser seguido, e este ano a
Campanha da Fraternidade explanou: "Que o Senhor Bom Jesus nos liberte pelo direito e pela justiça" - assunto tão antigo, mas em pauta pelas atuais representações políticas.


Às 5h da manhã, tocam os sinos. É Deus convidando para o momento com o divino. Numa sequência de 131 atividades concentradas no santuário do Matosinhos, entre celebrações, confissões, procissão e louvores, havia sempre aqueles fiéis que procuravam seu próprio senso de justiça. Pediam tocando o santo e seu coração, auxílio para o pão de cada dia, saúde aos enfermos, sabedoria para discernir o bem e o mal, e gratidão pela graça alcançada.

Sinos da igreja Nossa Senhora do Rosários dos Pretos, anunciando a primeira procissão.

Procissão da benção e distribuição do pão de Santo Antônio, saindo da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos até o santuário do Matosinhos

Para haver direito e justiça neste país, só mesmo com um grande milagre. Aqui, vale lembrar que a própria história da Festa do Jubileu, nasce com este propósito: o tempo de perdão, e operação de milagres.




A história da festa, reproduz um acontecimento que ocorre primeiro na região de Matosinhos em Portugal, quando pescadores encontram uma imagem de cristo, mas sem um de seus braços. Foi só quando resolveram fazer uma fogueira que perceberam que uma das ripas não pegava fogo. Se tratava do braço de cristo. A imagem, foi considerada sagrada, e desde então vem operando milagres na região de Portugal.



Em Conceição, não é tão diferente. A história começa com um escravo, que encontra num "Capão de Mato", local que hoje abriga o santuário, a estátua de cristo crucificado. A imagem tem o histórico de desaparecer 3 vezes do local, reaparecendo onde hoje está a capela de Matosinhos. A peça original, fica na capela dos padres, dentro do convento.



Os Romeiros


O primeiro fenômeno que observo é a própria cor que a cidade vai ganhando. No primeiro dia da festa, dia 13, plásticos azul e laranja cobrem os romeiros do sereno e da fé. São as barracas sendo montadas para que os devotos cumpram suas promessas e renovem seus votos de esperança junto ao Bom Jesus. Percebo nesta reunião, uma primeira ação de resistência ligada à liberdade da própria terra: idosos, crianças, jovens e adultos, convivendo num espaço em comum. Fomentando a comunidade. Compartilhando alimento, panela, energia elétrica, música, cachaça e a própria fé.


Luci, Eva, e Marcos, primeiros romeiros a chegar.

As cores, a posição social, e as funções de trabalho, se tornam mais horizontais. O encontro é a própria satisfação e retorno que os romeiros tem com a comunidade.

Léa segue a tradição de sua mãe Naná, que há 58 anos faz romaria, cozinhando canjica com amendoim no fogão a lenha construído para a barraca.


 "É um local de encontrar os amigos, saber quem está vivo e quem já foi" - Lorindo



A Cavalgada



A cavalgada é um dos símbolos nacionais da ocupação do território brasileiro, ocorrida entre os séculos 17 e 18. Sua origem se dá nas travessias de uma fazenda a outra quando os tropeiros, montados a cavalos e burros, conduziam os gados por dias e noites em trilhas rurais. Quando chegavam ao destino final, era o momento de celebrar com alimentos e fartura, mas também, o momento de pedir proteção para eles e os animais, com reza e promessas ao santo homenageado.




Em Conceição do Mato Dentro, a cavalgada já está em sua 29° edição, recebendo comitivas das mais diversas regiões de Minas e até mesmo Bahia. Entre os cavaleiros e amazonas, vemos idosos, crianças, famílias e amigos, se reunindo com um único objetivo: receber a tão esperada benção.

A concentração começa no Rancho, e tem saída até o Matosinhos acompanhando a padroeira homenageada Nossa Senhora do Rosario dos Pretos, carregada no ombro por devotos locais.


A chegada da padroeira ao santuário é motivo de muita emoção. Muitos devotos chegam ajoelhados, choram, tiram o chapéu, até que a água benta caia sobre sua consciência.


Estava na cavalgada? Confira neste link a galeria completa e procure sua foto. Lembre-se de compartilhar e usar as hashtags: #radiobomjesus98fm #espalhacultura


Devoção Consumo


Em meio a tanta tradição, colocada à prova pelas ofertas dos dias atuais, é possível ver a relação da cultura local com a cultura global: a moda de viola soando na sanfona contra a promoção no alto-falante do comerciante; A graça da igreja contra a baciada de calcinhas; Os símbolos de fé, contra os símbolos nacionalistas.

A feira lembra a rua 25 de março de São Paulo, aquilo que acontece durante todos os dias na capital, se passa em pouco mais que 15 dias na Conceição.

O shopping brejo, tão esperado pelos moradores para comprar as novidades da moda e as bugigangas fabricadas na china, parecem vir e ir num disco voador. Durante a madrugada as ruas se preenchem de cores e materiais obsoletos. Com a mesma velocidade que chegam, os comerciantes vão anunciando o fim do Jubileu. Saem em busca de outra festa religiosa, mesmo que a fé, esteja na estampa da camiseta.










Barraca de eletrônicos e tecnologias, uma das transformações visíveis do comércio e da globalização





Bruna com camiseta de “Gratidão”, caminha no shopping com a família. Além de consumo, ali é o ponto onde toda a comunidade se encontra.





















Roupas e panelas são os itens mais tradicionais no comércio do evento


Entre os comerciantes, percebemos a influência de novas etnias no país e nômades que circulam o país vendendo luz e alegria.

O parque de diversão que é atração no local, iluminando a cidade com seus movimentos.

A benção final






É chegada a hora da despedida.
No último dia do evento, Conceição se transforma. Recebe ainda mais peregrinos e turistas para saudar a preciosa benção. Pontualmente às 20h, inicia-se a Benção do Santíssimo Sacramento - Benção e Indulgência Papal, Benção dos objetos de devoção. O encerramento tem início com a última procissão, que tem sai as 18h da Igreja Matriz. Pela Luiz Maria, os fiéis seguem o bispo, carregando as velas, seus objetos de fé, e a própria esperança.
















































Dois fatos me chamaram atenção durante a benção final:




A intervenção de uma mulher que gritava "Ingratos" aos Padres, quando eles agradeciam a Polícia pelo trabalho realizado. Ela dizia que os seguranças queriam bater nela, e por isso, colocou a igreja no mesmo patamar. O êxtase foi quando a senhora recebeu a benção do bispo, e acalmou no mesmo instante!






O segundo, é um fato bastante curios! A banda que encerrou o evento, estampava as ideias da "Cultura Racional", uma filosofia que descentraliza a imagem de cristo, para colocar as mazelas do mundo, num campo mais holístico, de auto-conhecimento. Isso é uma espécie de demonstração, do quanto o Jubileu, e a próprio catolicismo brasileiro, é uma religião sincrética, onde se misturam diversas ideologias, mas traduzidas nos rituais cristãos. Essa é só mais uma prova, de como somos universais.

Memória, Turismo e Infraestrutura


Os conceiçoenses e romeiros são enfáticos ao dizer sobre o forró do campo. Sempre dizem que "era muito melhor quando acontecia no campo", e não no aeroporto. É uma relação bastante saudosa, pois, com a mudança de local, algumas manifestações culturais espontâneas, como o forró ou a moda de viola, foram se perdendo no meio do caminho. Essas espontaneidades, ficam no limbo, quando há uma disputa entre o sagrado e o profano. Agora, o entretenimento fica concentrado na indústria fonográfica, que traz não apenas bandas famosas, mas equipamentos eletrônicos que retiram aos poucos, o próprio fazer artístico de nós humanos.



Garimpando, conseguimos encontrar algumas ações que estão sendo feitas para preservar esta memória e incentivar novos criativos da região. Um exemplo, é a sucessão do 1° Festival de Inverno de Conceição do Mato Dentro, que contou com uma série de atividades que religam, não apenas os cidadãos à fé, mas também, à sua própria identidade, lembrando-os de suas capacidades manuais e intelectuais. Não à toa, já é comentado que no próximo ano será exibido durante o Jubileu, o filme-documentário "Memória e Fé - Jubileu do Bom Jesus do Matosinhos".

Outro exemplo, é de uma oficina de fotografia, que ocorre durante o Jubileu, e tem como objetivo final criar uma exposição coletiva à mostra no santuário. Esta ação, fomentada pela Anglo American, e lecionada por Léo Drumond é um exemplo de outras atividades emergentes neste modelo. Ações que qualifiquem e ainda, trate dos patrimônios culturais da cidade.

Gabriel, aluno da oficina de fotografia de 2018, ao lado de sua foto exposta

Sem dúvidas, são essas ações e promoções culturais que fomentam o turismo, seja ele ecológico, cultural, ou religioso. Este ano, Conceição do Mato Dentro recebeu aproximadamente xx turistas durante o Jubileu, gerando xx empregos e um gasto público de XX reais. Além disso, a prefeitura contou com o apoio de equipes de segurança e bombeiros.


Foram aproximadamente 90 bombeiros vindos de distritos e outras regiões de MG, para cobrir o evento.